Aproveitando o gancho da festa NO DIVÃNEIO para a crítica às festas Universitárias
Enviado em 13 de Outubro de 2007
Publicado por Natalia Beatriz | Enviar por e-mail
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“Que fique bem claro que sou uma das grandes defensoras da necessidade humana de chapar e pegar… Mas até pra potencializar a chapação e obter bombas explosivas de orgasmo nas pegadas, as drogas que você consumir precisam ter qualidade.”
“Em vez do meio universitário contribuir pro crescimento de bandas que estão ralando, que não se inserem na lógica, não! As festas universitárias vão tocar o mesmo sempre: uma banda de pagode, um forrozinho, uma dupla sertaneja, um pop rock de vez em quando. Além de uns caras que ficam trocando CDs com os hits do momento e se auto-intitulam DJs.”
“A indústria cultural avança como um tanque de guerra sobre nossas vidas, nossas idéias, nossas músicas e ficamos olhando com cara de que estava acontecendo uma festa open bar! Vamos encher a cara e ser feliz!”
“Ao contrário de tempos passados, quando a universidade era o campo onde boas idéias encontravam solo fértil pra florescer, hoje a universidade é uma plantação de soja trangênica. Uma enorme área de terra devastada, sem nada de biodiversidade que quase nos faz esquecer que ali existe vida, quanto mais vida inteligente. Uma terra a espera das sementes da TV Globo, da Sony Music, do Triângulo Music e cia.”
Aproveitando o gancho da festa NO DIVÃNEIO para a crítica às festas Universitárias
Por Natália Beatriz
Sempre tive uma relação muito franca com todos que me conhecem, criticando e permitindo que se façam críticas sobre os meus pensamentos… Então, pra fazer jus a forma aberta de se discutir temáticas sem que alguém se sinta ferido pessoalmente, toma lá:
No dia 20 de outubro haverá a festa NO DIVÃNEIO no Recanto do Carlito, festa de recepção dos calouros do curso de psicologia da UFU. E mesmo tendo na organização uma turma que não foi massacrada pela tradicional festa do curso, visto que no semestre anterior não houve festa, a 62.a. turma da Psicologia/UFU segue a linha tradicional da psico: brega como desde que eu a conheço. Inclusive como a que eu estive na (des)organização – assumo.
Eu esperava que uma turma com tanto de gente bacana como a 62.a. não fosse perpetuar a tradição brega das festas da psicologia/UFU. Esperava, na minha santa inocência, que eles conseguiriam usar esse espaço pra divertir a galera com atrações musicais de verdade e findar a era da “festa pra chapar e pegar” que as turmas da psicologia praticam pelo menos desde que ingressei nesse curso.
Que fique bem claro que sou uma das grandes defensoras da necessidade humana de chapar e pegar… Mas até pra potencializar a chapação e obter bombas explosivas de orgasmo nas pegadas, as drogas que você consumir precisam ter qualidade.
As festas universitárias são elaboradas mais ou menos assim: “Precisamos de uma festa pra galera beber toda a cerveja que colocarmos no bar!” e só! Que todo mundo que organiza festas e eventos culturais têm que vender toda cerveja e não ter prejuízo é óbvio! Mas vender a alma pro diabo por isso está valendo?
Todo mundo só pensa na grana que tem que ganhar, não pensa que formar público pra banda de qualidade vai bombar inclusive festas futuras, que isso é investimento nesses eventos. As pessoas passam a requisitar as bandas e freqüentar as festas porque gostam do som, e não somente pra encher a cara, porque encher a cara é muito mais barato em casa. Mas é contagioso, ninguém quer fazer festas bacanas, todo mundo se deixa contagiar pela simplicidade tola e não avaliam o quanto suas ações, que parecem isoladas do resto do mundo, tem repercussão em um dado tempo-espaço, constrói uma determinada realidade, sendo toda ação humana uma ação política.
Vou desenhar:
Surge uma banda legal na cidade, tocando produção autoral, com influências variadas quaisquer que fujam dos estilos musicais mapeados pela mídia. Isso pra mim já é o suficiente pra pelo menos respeitar os caras, mesmo que eu não goste do som, pois eles estão nadando contra a maré do cover e da indústria. Aí se for uma galera responsável, haverá uma pesquisa das influências que podem compor as idéias iniciais da banda, isso em rítimo, em vocal, em instrumentos, em poesia, em ideologia, em figurino, em técnica. Um trabalho que não tem limite. Quando a cara da banda está pronta, aí vêm os ensaios exaustivos, instrumentos que estão falhando, problemas financeiros. A banda vai ter uma ralação pra conseguir lugares pra tocar, divulgar o seu trabalho, tendo quase sempre um público muito restrito [1] .
Ao mesmo tempo surge uma dupla Sertaneja, que na verdade é mais New Brazilian Country, brega music ou qualquer outra coisa que não sertanejo. Os caras vão pra balada de chapéu tocar cover de Bruno e Marrone. Eles só precisam de umas revistinhas de cifras das músicas dos fazendeiros citados pra reproduzir a lambança. Ou mudar alguns acordes e dizer que possuem trabalho autoral. Vão tocar em todos os buteco da cidade, com um violão desafinado, uma voz de taquara rachada e todo mundo que tiver a fim de ouvir esse som saberá como, porque todo fim de semana Coliseu, Fazendão e companhia bombam.
E aí? Quem vai se dar bem? Em Uberlândia haveria espaço e público pra que tanto as bandas independentes quanto o lixo da indústria cultural circulassem. Mas não. Só o lixo tem valor. Bandas cover ou que se alimentam do formato midiático da música conseguem ganhar grana com muito mais facilidade do que quem realmente trabalha com música, produz música, vive a música.
E aí entra o público universitário. Atual e futura classe média, média alta, motor do sistema político e econômico, futuros profissionais da saúde, da educação, da cultura, da gestão, da construção, da produção, do direito. Profissionais formadores de opinião. Antigamente pra ocupar esses postos de trabalho precisava-se ter o mínimo de formação cultural: a elite era cult. E mesmo assim se fazia muita lambança sendo a massa intelectual do país; afinal de contas, é pra isso que existe uma elite. Mas surgiram também coisas interessantes desse meio como, por exemplo, a Música Popular Brasileira da década de 1970. E o círculo universitário foi muito importante para o surgimento, crescimento e construção de uma identidade da MPB. Inclusive pela grande perseguição política do regime militar a estes músicos, que encontravam nas universidades lugar propício para veicular informalmente seus trabalhos censurados. O sistema censurava, mas o público veiculava e consumia mesmo assim [2]. Isso é subversão, é liberdade, é não consumir apenas o que querem nos fazer consumir.
Mas parece que quando a repressão tira a farda, as pessoas se esquecem que ela poderia vestir a roupa que quisesse, que estivesse mais descolada! A indústria cultural avança como um tanque de guerra sobre nossas vidas, nossas idéias, nossas músicas e ficamos olhando com cara de que estava acontecendo uma festa open bar! Vamos encher a cara e ser feliz!
E hoje, o que acontece? Hoje, que teoricamente existe liberdade pra se produzir o que quiser, a repressão é muito mais tênue. Vivemos em uma democracia, todos os brasileiros são felizes, vivem no país do carnaval, nada precisa mudar, vamos beber e comemorar, ao som de qualquer lixo porque somos tão bobo alegres que conseguimos nos divertir com qualquer porcaria. Aí se diz: “o som é fulero, mas é bom pra dançar!” me poupem! Assuma que faz parte do seu EU ser brega que muito melhor! Vai me dizer que não existe música de qualidade que serve pra dançar, é só o que fizeram do funk, o axé e o que restou do forró que fazem as pessoas mexerem? Não aceito.
Agora vem o ponto crucial: em vez do meio universitário contribuir pro crescimento de bandas que estão ralando, que não se inserem na lógica, não! As festas universitárias vão tocar o mesmo sempre: uma banda de pagode, um forrozinho, uma dupla sertaneja, um pop rock de vez em quando. Além de uns caras que ficam trocando CDs com os hits do momento e se auto-intitulam DJs. “É porque festa universitária é assim mesmo, tem que ser, num dá pra ser diferente”, vão dizer. Mas ninguém tenta! Ninguém ousa! Ninguém quer inovar!
Ao contrário de tempos passados, quando a universidade era o campo onde boas idéias encontravam solo fértil pra florescer, hoje a universidade é uma plantação de soja trangênica. Uma enorme área de terra devastada, sem nada de biodiversidade que quase nos faz esquecer que ali existe vida, quanto mais vida inteligente. Uma terra a espera das sementes da TV Globo, da Sony Music, do Triângulo Music e cia.
E aquele papo de que tem que respeitar os gostos de todo mundo, ser eclético, pra mim fica limitado quando já existem opções para uma diversidade de públicos, mas não para outros. Gente! Conwboy tem lugar de terça a domingo no Coliseu! E no resto do sertão da farinha podre inteirim.
Galera, vocês querem dançar forró? Estamos bem no meio do cerradão brasileiro. Será que não existe nenhuma banda que toque um som dançante e regional que preste?! Será que com tanto recurso de comunicação de que dispõe a juventude de nossos tempos (só na internet: orkut, myspace e youtube por baixo!) não se consegue encontrar umas dicas de bandas da cidade ou da região que façam um trabalho de qualidade?
E pra quem gosta – e tem o direito de ser brega – da banda Balakubaku não precisava ir à festa da psico. A agenda da banda está do balakubaku: dia 06/10/2007 tem Churrasconagandaia no Recanto do Carlito; e dia 07/10/2007 tem Domingo Universitário no Liverpool Club.
E se assina com tanto orgulho uma festa com essas bandas toscas no momento em que a cena independente de Uberlândia está crescendo e se organizando [3], muitas bandas querendo fazer um trabalho legal, em vez de cumprir-se melhor os papéis que cada um de nós temos de disseminadores de idéias. É sim! Promovendo uma festa com os irmãos Hudson e Lukas vocês não estão valorizando a música sertaneja. Aceitam a idéia de que o que eles fazem é sertanejo, como se esse novo estilo não tivesse a função de matar a música sertaneja!
Ah! Devolver minhas críticas com palavrões sem sentido, sem idéias, não abalam minha auto-estima! Conversem! Conheçam o mundo! Sigam o conselho de uma banda muito legal, lá de Catalão-GO, Maria e seus malucos, na música conheça:
grite, escute, deseje, seje
algo bem maior que o seu umbigo
sinta a pele leve
interprete
experimente
experimente
experimente
experimente
[1]
As bandas BGs da UFU, vão tocar pra galera BG da UFU: que marca a divisão física do campus do bloco 1G ao 3M. As bandas punks vão tocar pros punks (aliás… tem punk de verdade em Udia? Estou em dúvida), os maluco do Rap vai tocar pros mano e pras mina, e o Heavy Metal… ah, o Heavy Metal… Mas ainda tem muita música! E a música regional, as percussões, o samba. Cada igrejinha com seus fiéis batizados e pagando o dízimo em dia.
[2]
Vídeo do show de Chico Buarque e Gilberto Gil cantando Cálice, tendo o microfone cortado durante o show da música censurada, mas acompanhada em voz alta pela platéia. [http://br.youtube.com/watch?v=oXGDlMMOEWg]
[3]
Jambolada, Conexão Telemig Celular, Goma, RádioBURITI, Arte na Praça, Grupo de risco, Escombro, Grupo Por Nossa Contam, Neurônio… Sabe o que é isso? Sabe pra que serve? Não? Esse é o problema…
Natalia,
Muito legal mesmo a sua crítica, sinal de que ainda existem cérebros na universidade. Não sou psicóloga, sou farmacêutica, e nem Uberlândia; sou de BH, formada pela UFMG.
Acho que tudo o que vc disse eu vivi, nos meus tempos (tenho 4 anos de formada) e o pior, não passa depois de segurar o canudo! É triste concordar com vc e perceber que a repressão/massificação tem q estar vestida para q as pessoas notem.
Nos meus bons tempos de ICB, ICEX, no campus da Federal, eu usava algum tempo para bisbilhotar o prédio das ciências humanas e pegava vários livros muito lindos e ótimos, que me faziam expandir os horizontes, conhecer novos autores, enfim, sempre fui leitora compulsiva….. o que eu quero exemplificar com esse papinho é que não é só pelos ouvidos que às vezes as pessoas preferem ficar na mesmice. O pessoal horrorizava comigo, perguntava por que eu lia bibliografia que não era do currículo, por que eu me dava ao trabalho, por que não lia só química farmacêutica, orgânica, inorgânica, farmacologia, farmacotécnica e tantas outras grades….
No final das contas, sou formada como todos os outros, e além disso tenho certeza de que meus passeios pelos corredores dos cursos da área de humanas me renderam recursos internos fantásticos que eu não teria acesso caso não aproveitasse a liberdade do campus em plenitude.
Infelizmente hoje as universidades e faculdades estão muito voltadas para o mercado e os próprios estudantes também.
Muito dificilmente você vai abrir a cabeça de todos para o papel que o estudante universitário um dia teve, mas quem sabe, vc dê uma clareada na cabeça de uns poucos, isso já é trabalho para uma vida. Continue escrevendo, vc escreve bem.
Um abraço,
Josiane